Mestre pela UFMG, Denilson Fiuza, destaca o Reinado como patrimônio de memória, informação e resistência
Foto: Denilson Fiuza
Pesquisa do graduado em Educação Física pela UFJF analisou o tratamento informacional das celebrações do Reinado em Minas Gerais e defende o reconhecimento dos sistemas de memória construídos pelas próprias comunidades reinadeiras.
A defesa da dissertação “Comunidade Reinadeira Sacro-Cultural de Belo Horizonte: indícios, perspectivas e reflexões”, realizada em 30 de junho de 2026, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), marca mais um importante capítulo na trajetória acadêmica e cultural de Denilson Fiuza. O pesquisador conquistou o título de Mestre em Ciência da Informação ao desenvolver um estudo que investiga como as celebrações do Reinado, uma das mais importantes manifestações de matriz africana em Minas Gerais, são representadas e preservadas nos registros oficiais e comunitários.
A pesquisa teve como objetivo analisar o tratamento informacional dado às celebrações do Reinado em Minas Gerais, a partir do Dossiê para Registro dos Caminhos, Expressões e Celebrações do Rosário, elaborado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA, 2024), com foco nas comunidades reinadeiras de Belo Horizonte.
A análise considerou diferentes perspectivas teóricas sobre as matrizes africanas presentes no Reinado, buscando compreender como essas manifestações são registradas e interpretadas pelos documentos oficiais e pelas próprias comunidades. Para isso, foi realizado o mapeamento das representações das comunidades reinadeiras de Belo Horizonte no Dossiê do IEPHA (2024) e na Coleção História dos Bairros de Belo Horizonte (CHBBH), de Arreguy e Ribeiro (2008), disponível no Arquivo Público da Cidade, identificando convergências e assimetrias no tratamento informacional dado pelos dois conjuntos documentais. Além disso, quantificaram-se as expressões sacro-culturais reinadeiras identificadas em cada um desses conjuntos documentais para evidenciar a desigualdade de registro entre as fontes. Também foram descritas e contextualizadas historicamente, por meio de estudo de caso, as práticas da Associação de Reinado Nossa Senhora do Rosário de Belo Horizonte, na Vila Celeste Império (ARNSRBH), interpretando-as como expressão de resistência e (re)existência simbólica, cultural e informacional à luz das assimetrias documentais examinadas.
Segundo Denilson, a pesquisa nasceu da necessidade de compreender como o patrimônio cultural afro-brasileiro é representado institucionalmente e como as comunidades preservam sua própria história.
“A pesquisa demonstra que o Reinado não é apenas uma manifestação cultural ou religiosa. Trata-se de um complexo sistema de informação, memória e resistência, construído e preservado pelas próprias comunidades ao longo de gerações”, afirma o pesquisador.
A investigação adotou uma abordagem exploratória, bibliográfica e documental, utilizando métodos qualitativos e quantitativos. Entre os objetivos específicos estiveram o mapeamento das representações das comunidades reinadeiras de Belo Horizonte em diferentes conjuntos documentais, a comparação entre registros oficiais e comunitários e a análise histórica das práticas da ARNSRBH como expressão de resistência cultural e informacional.
Os resultados evidenciaram que, embora o dossiê elaborado pelo IEPHA represente um importante avanço na valorização pública do Reinado, ele ainda não contempla toda a complexidade das práticas informacionais existentes dentro das comunidades tradicionais.
“Os livros de registro das comunidades revelam formas próprias de preservação da memória, nas quais ancestralidade, oralidade, religiosidade e experiência coletiva são elementos inseparáveis. Esses registros mostram que há conhecimentos que não podem ser plenamente compreendidos apenas pelos documentos oficiais”, destaca Denilson.
A dissertação também amplia o debate sobre patrimônio cultural, memória social e justiça informacional, contribuindo para o campo da Ciência da Informação ao discutir a invisibilidade histórica das manifestações do Reinado nos discursos oficiais e a necessidade de reconhecer outras formas de produção e circulação do conhecimento.
A pesquisa foi orientada pela Profa. Dra. Ana Paula Meneses Alves, da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cuja orientação foi fundamental para o desenvolvimento da investigação. A banca examinadora foi composta pelos professores Dr. Douglas Emiliano Januario Monteiro, Dr. Claudio Paixão Anastácio de Paula, Dra. Franciéle Carneiro Garcês-da-Silva e Dra. Kariane Regina Laurindo, que avaliaram o estudo voltado às relações entre patrimônio cultural afro-brasileiro, memória e justiça informacional.
Trajetória acadêmica e reconhecimento
A conquista do título de mestre consolida uma trajetória marcada pela atuação acadêmica, cultural e social. Denilson é mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), na modalidade de Educação a Distância (EaD), com apoio do Centro de Educação a Distância (Cead/UFJF), e tecnólogo em Logística pelo Centro Universitário Internacional Uninter. Também recebeu os títulos de Mestre do Notório Saber, concedidos pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em 2024, e pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), em 2026.
Em 2025, sua trajetória foi reconhecida pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), que lhe concedeu a premiação Raízes Mineiras: Premiação às Trajetórias Artísticas, Culturais e Tradicionais, destinada a personalidades que contribuem para a preservação e valorização da cultura popular do estado. Denilson também integra a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Recursos, Serviços e Práxis Informacionais (NERSI), desenvolvendo pesquisas voltadas às relações raciais, ao patrimônio cultural, às políticas públicas e às práticas informacionais.
Na dissertação de mestrado, o pesquisador defende que o reconhecimento dos sistemas próprios de memória das comunidades reinadeiras constitui um passo importante para o fortalecimento das políticas de preservação do patrimônio cultural afro-brasileiro e para a construção de práticas de acesso à informação mais inclusivas e democráticas.
“Valorizar os modos próprios de registro e transmissão da memória dessas comunidades significa reconhecer seus saberes, sua história e sua contribuição para a formação da identidade cultural brasileira”, afirma o pesquisador.
Essa perspectiva também está presente em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Licenciatura em Educação Física, apresentado à Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Fundamentada em uma abordagem decolonial, a pesquisa foi desenvolvida sob a orientação da Profa. Dra. Carolina dos Santos Bezerra Perez e propõe uma reflexão crítica sobre a descaracterização das práticas culturais de matriz africana, destacando a importância da valorização dos saberes ancestrais e das formas de resistência construídas pelas comunidades tradicionais.
O trabalho reúne relatos e experiências que evidenciam a relevância da oralidade, da memória e da ancestralidade como elementos centrais na preservação desses conhecimentos. Entre os depoimentos, destaca-se o de Mestre Paulo Brasa, cuja trajetória contribui para compreender a capoeira não apenas como manifestação cultural, mas também como prática educativa, patrimônio cultural e instrumento de resistência e afirmação da identidade afro-brasileira.
Ao estabelecer um diálogo entre a pesquisa de graduação e a dissertação de mestrado, Denilson reafirma o compromisso com a produção de conhecimento voltada à valorização das culturas afro-brasileiras e ao reconhecimento dos saberes tradicionais como parte fundamental da memória e da identidade nacional.
A trajetória do autor evidencia como as universidades podem contribuir para o reconhecimento das memórias, práticas e formas de organização das comunidades tradicionais, fortalecendo o patrimônio cultural brasileiro e ampliando o debate sobre inclusão, diversidade e justiça social.