Especialista comenta na Radioweb Cead sobre período de estiagem
Na semana passada, um assunto foi destaque na mídia do país, a seca da principal nascente do Rio São Francisco, localizada na Serra da Canastra. A notícia aumentou a preocupação da população, já alarmada com o período prolongado de estiagem enfrentado nos últimos meses. Para discutir o tema, a Radioweb Cead recebeu o professor do Departamento de Geociências da UFJF, Miguel Felippe, especialista em nascentes de cursos d’água.
O São Francisco tem mais de 2.700 km e corta sete estados brasileiros – Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás e Distrito Federal – o que dá a ele o título de maior rio totalmente brasileiro, com uma bacia hidrográfica que abrange 504 municípios. Na Serra da Canastra, percorre 14 quilômetros até cair na cachoeira Casca Danta, onde inicia a jornada para o Sul e, em seguida muda o curso para o Nordeste do Brasil.

Para o professor, a educação para o uso consciente da água é o melhor caminho para enfrentar o problema
Segundo o professor Miguel Felippe, existem três questões fundamentais que levaram à seca da principal nascente do São Francisco. A primeira questão, e que está mais em voga na mídia, é o longo período de estiagem. “Têm sido um ano atípico, as chuvas têm demorado mais a acontecer e mesmo as chuvas de início de ano não vieram com a intensidade esperada”, explica.
O segundo fator é o aumento do número de queimadas. “As nascentes são ambientes muito frágeis, muito sensíveis, e infelizmente a gente teve notícias de queimadas na Serra da Canastra esse ano que, com certeza, acabaram contribuindo para esse cenário que a gente está vendo hoje”, revela.
O terceiro fator também é inerente à seca deste ano, mas também passa pelas questões hidrogeológicas da Serra da Canastra. “As nascentes são alimentadas por aqüíferos, e lá na Serra da Canastra eles têm um dinamismo muito grande. A água entra e sai de forma muito rápida. Então, é normal em qualquer ano que algumas nascentes sequem em contextos como esse. Nós temos lá, normalmente, um período de estiagem razoavelmente longo. Essa oscilação entre o período de máxima de cheia e mínimo de seca acaba ficando muito grande”, explica.
Para Felippe, o impacto da seca dessa nascente para o São Francisco é pequeno, “porque um rio como esse tem várias nascentes que o alimentam ao longo de todo o seu curso. Só na Serra da Canastra existem, possivelmente, centenas de nascentes que vão suprir essa drenagem”, afirma o professor, destacando que o mais preocupante é possibilidade de outras nascentes também terem secado, sobretudo no primeiro trecho do rio. “Os relatos são de que a cachoeira está com pouca água. A Represa de Três Marias também está com problemas. Até lá estamos observando reflexo dessa estiagem não apenas dessa nascente, mas de um conjunto de nascentes”.
Apesar de a situação ser preocupante, Felippe acredita que ela é reversível, principalmente a partir do momento em que as primeiras chuvas mais intensas caírem sobre a Serra da Canastra.
“Com as primeiras chuvas retorna um padrão semelhante ao dos outros anos. Acredito que esse prejuízo é momentâneo e a própria natureza consegue recuperar, pelo menos assim a gente espera, em pouco tempo. Naturalmente essa situação vai ser revertida porque nós já temos essa característica de dupla estacionalidade. O meu medo é que essa situação de seca muito extrema se repita anualmente. Se isso ocorrer, a gente pode ter um desequilíbrio em todo esse sistema.”
O professor explica que um período de seca fora dos padrões normais pode ser ocasionado por diversos motivos, desde fatores naturais relacionados à circulação atmosférica, até fatores relacionados às mudanças climáticas.
“Eu sou um pouco cético em relação à maneira com que a mídia vem divulgando as mudanças climáticas, mas tem ficado cada vez mais difícil de negar que elas existem. Isso pode agravar a questão da seca num futuro próximo, e não só a questão da seca, mas uma desregulamentação dessa dinâmica hidrológica que a gente tinha, podendo causar em algumas regiões do país secas mais prolongadas e em outras chuvas mais intensas”.
Sobre a escassez de água e responsabilidades
Para o professor Miguel Felippe, existem duas questões a se pensar sobre a probabilidade da falta de água potável no mundo. Em relação à primeira questão, ele aponta alguns dados de um dos seus trabalhos, na própria bacia do São Francisco. “Nesses contextos hidrogeológicos semelhantes ao da Serra da Canastra, em torno de 70% das nascentes são intermitentes, ou seja, em cada dez nascentes, só três se mantêm com água durante todo o ano, e isso já é uma questão natural, independente dessa seca extrema que a gente está vivendo esse ano. O próprio dinamismo ao longo de um ano hidrológico consegue fazer com que isso se recupere ao longo desses doze meses. No caso lá da Canastra, são em torno de quatro a seis meses de seca e depois mais seis a oito meses de chuva. Nesse contexto é muito provável que o São Francisco em breve consiga voltar ao seu padrão normal de água normal”, explica.
Ele ainda aponta outro fator importante em relação aos reservatórios de água. De acordo com Felippe, existem algumas nascentes que, para conseguir controlar esse rebaixamento do nível freático no período de seca, começam a descer o morro migrando sua posição para manter a saída da água sem secar completamente. “Isso está acontecendo em alguns casos lá na Serra da Canastra hoje, e aí então aquele local onde a nascente sai tradicionalmente pode estar seco, mas em alguns metros, ou até dois, três quilômetros abaixo, você pode ter água”, analisa.
Para o professor, a questão da disponibilidade de água, principalmente para consumo humano, passa não apenas pela questão natural, como chuvas e quantidade de água das nascentes e dos rios, mas principalmente pela questão da gestão das águas. “Nesse ponto, entra o papel muito importante da esfera pública, seja ela municipal, estadual ou federal, de garantir que as águas sejam usadas com parcimônia”, aponta.
A possibilidade de ter disputas pelo uso da água no futuro não pode ser ignorada, de acordo com Felippe. “A gente precisa trabalhar hoje pensando lá na frente, de forma bastante consciente, e não tentando passar a responsabilidade de determinadas coisas para a população, o que é muito comum ver o Governo fazendo, jogando a responsabilidade para a população de algo que é dele”, conclui.
Para o professor Miguel Felippe, falta consciência ecológica de uma forma geral na população, não só brasileira, mas mundial. “A gente precisa também saber de quem cobrar. Das empresas de saneamento, por exemplo, que tem um desperdício gigante nas tubulações antes de chegar nas nossas casas, das grandes empresas agrícolas que fazem o uso de irrigação de forma extremamente irracional, do governo, que tem leis para regulamentar isso mas tem poucos instrumentos de fiscalização que de fato coloquem essas leis em efetividade”, argumenta.
Segundo Felippe, a quantidade de água que a agricultura usa é maior do que o consumo para dessedentação humana. “Muitas pessoas não percebem, mas, se a gente pode falar em vilão, os principais estão fora da cidade. Estima-se que a agricultura use hoje 70% da água do mundo”, enfatiza, destacando que a educação para o uso consciente da água é o melhor caminho para enfrentar esse problema.
Texto: Daniele Xavier e Thiago Stephan
Foto: Priscila Ferro