Atividades Matemáticas e Saúde Mental

09/09/2021

Em entrevista à Assessoria de Comunicação do Centro de Educação a Distância da Universidade Federal de Juiz de Fora (Cead/UFJF), a Licenciada em Matemática pela UFJF, na modalidade a distância, Lyliane Lanza, conta a sua experiência vivida como educadora de Matemática em uma clínica psiquiátrica e aponta os resultados terapêuticos alcançados pelos pacientes participantes. Ela ofertava oficinas de Matemática nas clínicas visando demonstrar como a disciplina pode contribuir para portadores de transtornos mentais.

Segundo Lanza, o trabalho com a Matemática em clínicas psiquiátricas é uma possibilidade de desenvolvimento e aperfeiçoamento do potencial cognitivo do paciente, especialmente, quando proporcionam a inserção dos pacientes em atividades de convivência. “Matemática e Psicanálise parecem temas distantes, mas são próximos. As oficinas tinham como objetivo dar a estas pessoas um saber a mais para a vida nas atividades cotidianas e com a possibilidade de se inserirem dentro da sociedade, tentando quebrar o estigma e o preconceito”, comenta.

“Há cerca de 30 anos, vem tomando corpo no Brasil a Reforma Psiquiátrica que se propõe a constituir um hospital de portas abertas, não só para que o paciente possa sair, mas acima de tudo para que a sociedade possa entrar. É a tentativa de criar dispositivos institucionais que viabilizem a existência do paciente portador de transtorno mental na sociedade, nas ruas, no convívio familiar e de garantir o pleno direito à cidadania”, frisa.

Promover a educação nestes ambientes alternativos pode trazer possibilidades de ressignificação pessoal, espírito de independência e autonomia, além de criar um espaço intelectual potencial para os participantes expressarem suas concepções de mundo e suas elaborações pensadas sobre fatos de seu cotidiano.

A proposta da oficina ofertada por Lanza foi trabalhar com a Matemática respeitando a realidade sociocultural, o ambiente vivido e o conhecimento que cada indivíduo traz em si. “É preciso aproximar a Matemática do que é espontâneo, pois cada um tem um modo próprio de aplicá-la. A preocupação inicial é escutar a demanda, entender de que forma o saber matemático pode contribuir para a recuperação deste paciente. Para tanto, faz-se necessário que o “educador” esteja livre de qualquer pré-conceito e que esteja liberto e disposto a novas formas de educar”, revela.

De acordo com a professora de Matemática, a oficina foi montada de forma livre e ministrada no espaço que melhor atendesse os pacientes. “Como qualquer outra sala de aula, ali também se estabelece uma relação de confiança e transferência, os pacientes/alunos confidenciavam suas angústias e emoções. Alguns pacientes frequentavam a oficina para resgatar um tempo perdido, aquele que ficou na educação fundamental, no ensino médio, quando se deu seu primeiro surto; outros, simplesmente para aprenderem a lidar com questões práticas, do cotidiano, a fim de se sentirem menos excluídos e poderem dar conta sozinhos de resoluções simples de suas vidas; existiam também aqueles que almejavam mais e utilizavam desta oportunidade para tentarem realizar algum sonho, algum projeto, como um concurso público ou a ascensão a uma faculdade, havia, também, aqueles que só queriam praticar, preencher o tempo. Não eram raros os que participavam da oficina com o simples propósito de fazer dela o seu lugar de fala, de “campo analítico”, relata.

Lanza finaliza relatando que as oficinas se mostraram um espaço de significativa singularidade dentre os outros projetos que faziam parte do cotidiano da clínica psiquiátrica. “Os resultados das ações e seus desdobramentos para o paciente , que tornaram-se temas em reuniões da equipe técnica, começaram a insinuar-se, de forma que passaram a ser considerados para além de dispositivos complementares no dia a dia do paciente e ganharam o status de serem potenciais espaços para soluções terapêuticas”, conclui.